


Hoje é dia 5 de maio e entro oficialmente na décima terceira semana de gravidez. Pela primeira vez em muito, muuuito tempo, tive uma vontade incômoda de vir aqui escrever. Sem plano, sem ideia de conclusão, sem intuito de postar tão logo. Só escrever. Guardar minhas memórias.
Essa data é marcante porque significa que o primeiro trimestre já acabou. Dá um alívio pois é o período de mais perigo, estatisticamente, e termos sobrevivido é uma conquista e tanto. Ao mesmo tempo, me veio uma tristeza, logo de manhã, quando percebi que passou rápido e um terço da minha gravidez já foi. Estranho porque há umas duas semanas eu não aguentava mais esperar outra semana até chegar a 12, em que o primeiro ultrassom morfológico finalmente aconteceria. Do primeiro ultrassom até esse, em que houve um intervalo de um mês, parece que passou um ano inteiro.
É simbólico estar aqui escrevendo agora, em silêncio e sozinha. Tem muita coisa sobre o contexto da minha gravidez que não é o que eu tinha imaginado e está completamente fora do meu controle. Hoje, contando a novidade para uma amiga, ela disse, rindo depois de ouvir sobre como descobri e o contexto: “olha só, não aconteceu nada como você havia planejado”. Ri com ela. Só alguém que me conhece de verdade sabe o quanto isso é chocante e incomum na minha vida, especialmente se tratando de algo tão grande. Mas ouvir dela me invadiu com uma sensação de calma perfeita, daquele tipo que existe apenas em Deus mesmo. Que bom que foi do jeito que Deus quis, no tempo que Deus quis. Lembrar disso me fez ter certeza que é exatamente o que eu preciso viver agora. E como mais um presente ainda sentir vontade de vir escrever… que especial.
Meu coração nesse exato momento transborda de felicidade. Registro aqui que é a primeira vez desde que descobri que estou grávida que estou sentindo assim: feliz e só. Jamais passou pela minha cabeça que era isso que me esperava quando abri essa página em branco.
Estou planejando contar da gravidez para a internet no final desta semana, dia das mães. Não sei exatamente o que esperar mas se for uma fração do que senti ao contar para a minha família e amigos, imagino que será algo poderoso. Eu nunca tinha sentido esse tipo de amor tão genuíno direcionado a mim. O choro que bate como uma onda, as primeiras perguntas que as pessoas fazem, o cuidado que demonstram em oferecerem suporte. É meio mágico tudo isso, sinto que preciso achar mais jeitos de nunca esquecer desse momento.
Das coisas que fizeram parte do primeiro trimestre e eu quero lembrar –
- fisicamente, como “sintomas”: sono, cólicas diferentes e dor nos seios. Tive zero náuseas, vômitos e vontades absurdas de comidas específicas;
- no assunto comida, frutas azedinhas e geladas foram especialmente deliciosas (foi isso e McDonald’s na cama em NYC, pedido de sempre);
- ansiedade e preocupação em relação ao próximo exame, próximo ultrassom, próximo encontro com médicas e enfermeiras. Medo de perder o nenê vibes fazer xixi e olhar o papel todas as vezes, até no meio da madrugada, com medo de ter perdido algum sangue. Medo de descolamento e qualquer coisa de mais impacto tipo passar por um buraco na rua com o carro;
- paz e alívio em ouvir o batimento cardíaco pela primeira vez, ver o neném nos exames, acompanhar tudo pela telinha do ultrassom, fazer mil perguntas e a resposta ser “está tudo perfeito”;
- cápsulas do tamanho de um ovo de dinossauro: suplemento de vitaminas e agora ferro. Também estou tomando uma dose pequena de um remédio para ajustar hipotireoidismo, tomo em jejum e como um pouco depois.
- funcionamento estranho do cérebro. Rolam uns lapsos bizarros de fala, uma lerdeza estranha (até pra andar o que é estranho pra mim) e outro dia guardei uma lata de Nescau na geladeira.
Uma coisa que pensei muito esses tempos, inclusive com a enxurrada de conteúdo de gravidez desde que o algoritmo entendeu que estou grávida, é o quanto me sinto um ET emocional vivendo no meu próprio planeta de sentimentos e questões. As mulheres falam sobre isso mas você imagina que se todas passam por isso em algum momento, uma entenderia a outra perfeitamente, né? Eu imaginava isso. Mas não é bem assim. As recém mães, que ainda se recuperam do parto e estão se adaptando com o neném em casa vivem coisas tão impactantes nessa transição que o começo da gravidez vai pra uma outra gaveta. Já quem passou por isso há alguns poucos anos faz parte de uma geração de grávidas completamente específica da pandemia e viveu uma gravidez muito diferente de todas. Quem já tem pré-adolescente ou ~jovens no geral vibra numa outra dimensão em que gravidez é um assunto mais perto das preocupações com a própria criança do que de si próprias. As mães e vós de adultos costumam contar da gravidez como uma fase muito legal ou ruim, sem muitos detalhes, quando você vê a história já tá na criança andando. São mães que também viveram numa outra época do mundo em que até o tempo passava diferente. Ou seja, a sensação é que literalmente *só eu* sei o que estou passando e sentindo. Talvez, e um talvez bem talvez mesmo, uma outra grávida na mesma exata semana que eu entenda melhor. Vi um pouco disso online e foi bom, mas virei uma chave importante ao perceber que a situação mental de uma criatura humana grávida de 8 semanas é completamente diferente de uma de 9 que é completamente diferente de uma de 13 tipo eu agora. Uma mulher que já passou pelo terceiro trimestre de gravidez, pariu e agora cuida de um recém nascido nem lembra mais da ansiedade que é uma singela cólica de útero esticando por conta de um neném de 7cm. Pra mim, hoje, os medos e as ansiedades são as maiores e mais relevantes que eu já senti e passei na vida. Daqui mais algumas semanas serão apenas memórias, se tudo continuar dando certo (e eu continuar priorizando registrar essas coisas).
Me faz pensar na gente como adulto perto das emoções, descobertas e dificuldades de uma criança. Quero conseguir lembrar dessa falta de conexão que sinto hoje com pessoas que sabem mais que eu e tentar voltar a saber menos quando estiver cuidando do meu neném, para olhar com mais cuidado para os detalhes, compreender e ajudar melhor, por uma perspectiva que não a minha.
Já estou há mais uma hora aqui pensando e escrevendo tudo que vem na cabeça mas o cansaço da grávida bateu. Não vou conseguir explicar agora a minha felicidade e gratidão por sido tocada em vir escrever. Mas termino e vou dormir sentindo, pela primeira vez em três meses, que estou no lugar certo, na hora certa.
Amém.

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