
Foi a última de maio e foi muito mais especial do que eu poderia ter imaginado.
Com as coisas meio de pernas pro ar, sem previsibilidade nenhuma e me esforçando bastante para ficar calma, dormir o suficiente e manter tudo funcionando na rotina, minha expectativa era basicamente existir. Na semana seguinte, eu encontraria com a obstetra e lá ela sempre faz um ultrassom menos tecnológico mas ainda perfeito para checar tudo certinho. Era por essa parte que eu estava esperando mais.
Tive que falar com ela por mensagem pra perguntar sobre sintomas chatos de xixi (será que a vontade a mais é porque já estou sendo amassada internamente ou tem algo errado que seria bom examinar?) e nessa conversa aproveitei para perguntar sobre um ultrassom “extra” que ela havia me prescrito e eu acabei esquecendo de marcar. Palavras dela: “esse é só para não morrer de saudades do bebê”. Meu coração derreteu um pouco. Marquei então para o primeiro dia da semana 16, segunda-feira.
Na noite anterior eu estava sentindo uma ansiedade que até aquele momento eu não havia tinha sentido. Será que algo dentro de mim já sabia o que ia acontecer no dia seguinte? Acordei cedo, comi algo leve, chamei um carro e fui para o laboratório. Percebi que estava nervosa mesmo só quando a médica do ultrassom entrou na sala e eu já quis começar a conversar com ela como se fôssemos amigas há mil anos. Elogiei a bota, falei sobre como tava frio, falei do gel quentinho que ela colocou na minha barriga para começar o exame. Assim que a imagem apareceu na TV, a primeira coisa que ela me perguntou foi: “você já sabe o sexo?”
Pausa aqui.
Até então, eu estava super hesitante sobre descobrir o sexo. Vi muitos vídeos de pessoas que fazem todo o show ~revelação e meses depois descobrem que na verdade o sexo do nenê era outro. Fiz questão de perguntar sobre isso para a minha médica em uma das consultas e ela confirmou que realmente existe uma margem de erro a ser considerada caso você, como eu, queira ter certeza. Erram na sexagem, erram na leitura dos ultrassons… e eu absolutamente não queria correr risco de erro então optei por simplesmente esperar, mesmo recebendo perguntas sobre isso diariamente da família e dos amigos. Sei lá, não saber quase nada sobre esse nenê há meses, finalmente descobrir o sexo e assim conseguir imaginar coisas mais palpáveis tipo nome, lookinhos fofos e estratégias de educação mas aí ter que mudar tudo depois porque algum médico errou interpretação de exame… não, eu não queria passar por isso. Minha médica até disse que tinha um palpite com base nas imagens da semana 12 (perguntou o meu palpite também e usou de sua mais plena poker face ao ouvir minha resposta, que hoje eu sei que já estava certa) mas como eu falei que queria ter certeza quando fosse pra saber, ela falou que era melhor esperarmos mais porque até o médico do ultrassom da irmã dela errou o fucking palpite (naquela fase das 12 semanas a margem de erro dos palpites médicos pelo ultrassom era de 25% segundo a doutora).
Bom. Retomando.
“Não”, respondi.
“E eu posso te falar o que é?”, ela perguntou com toda a calma do mundo enquanto encarava o monitor decididamente, sem hesitar.
Expliquei minha filosofia sobre esperar até poder ter certeza e perguntei pelo menos duas vezes se ela tinha certeza MESMO do que estava vendo. Pela imagem, eu consegui entender que estávamos olhando o nenê de baixo, literalmente de bunda. Se eu estivesse menos nervosa talvez eu também tivesse conseguido identificar o que estávamos vendo (estudei muitas imagens de ultrassom de outros nenês nessa fase e as medidas e os órgãos que a gente precisa conseguir ver e os marcadores etc) mas eu só conseguia pensar que eu ia sair de lá com uma informação que não sabia que receberia assim, naquele dia.
Ela me garantiu que não tinha como ter dúvida sobre o que estava vendo. Que não só tinha certeza, como a imagem e a posição que havia conseguido ali estavam perfeitas para dizer.
“Doutora, você poderia então escrever a resposta num papelzinho e dobrar bem dobrado para eu guardar na bolsa e decidir o que vou fazer com essa informação com mais calma depois que sair daqui?”, perguntei tentando permanecer racional enquanto por dentro meus divertidamente apertavam todos os botões.
Ela riu e disse “Claro!”.
Seguimos o exame, que pareceu super rápido depois disso. Finalizamos e ela me liberou com aquele papelzinho bem dobrado queimando um buraco na minha bolsa. Eu já tinha chamado o elevador para ir embora quando percebi que a médica estava ali me procurando – ela havia esquecido de registrar os batimentos cardíacos do nenê. “Foi tanta emoção nesse exame que acabei esquecendo, me desculpe”, ela disse. Rimos.
A essa altura eu já estava sobrevoando a estratosfera. Pensava em como faria para que minha experiência descobrindo essa informação tão importante não fosse simplesmente abrir um papelzinho sozinha na rua. Eu já sabia que não queria fazer nada no estilo atual dos chás revelação (não gosto nem do nome desse evento) mas não tinha exatamente pensado em alternativas. Como poderia fazer de tudo isso uma memória legal sem envolver fumaça colorida, confete e bolos duvidosos?
Saí do laboratório sorrindo numa confiança e gratidão surreais, sentindo Deus na minha volta de um jeito tão próximo e palpável que era como se não houvesse possibilidade alguma de eu sequer tropeçar ao longo do caminho que decidi fazer andando até o shopping. Eu tive uma ideia.

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